“A viagem não acaba nunca.
Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa...
O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
O viajante volta já.”
José Saramago (1981) [adaptado]
A
natureza é uma fonte inesgotável de inspiração artística. Cada folha, com a sua
forma única, a sua textura e as suas cores, conta-nos uma história sobre o
ciclo da vida. As folhagens, em especial, são como pequenas obras de arte que
mudam ao longo das estações: verdes e cheias de energia na primavera e no
verão, e em tons dourados, vermelhos e acastanhados no outono.
Na
disciplina de Educação Visual, com alunos do 7.º ano, observámos as folhas não só como elementos
da natureza, mas também como suportes para a criatividade. Tal como vemos nas imagens, é possível transformar uma simples folha em algo especial,
acrescentando padrões, formas e desenhos que revelam a nossa imaginação. Este
exercício vai ajudar a olhar para a natureza de forma mais atenta e a
descobrir a beleza nos detalhes mais simples.
Entre o Alentejo e as Beiras olhamos a natureza...
A natureza sempre inspirou artistas de todas as épocas.
Basta observar uma folha: cada uma tem a sua própria forma, textura e cor, como
se fosse um pequeno retrato do ciclo da vida. Ao longo do ano, as folhas mudam
tal como mudam as estações — vibrantes e verdes na primavera e no verão, depois
douradas, avermelhadas ou castanhas no outono.
Na disciplina de Desenho A, vamos olhar para as folhas de
uma maneira diferente: não apenas como parte da natureza, mas também como ponto
de partida para a criação artística. Uma simples
folha pode transformar-se numa tela para padrões, formas e desenhos que
refletem a imaginação de cada um. Este exercício vai desafiar-nos a observar com mais
atenção, a valorizar os detalhes e a transformar o que é simples em algo único
e criativo.
Os trabalhos ainda estão em processo de construção.
Há lugares que não se explicam — respiram-se. O
Alentejo, com os seus campos ondulados sob o sol morno, sussurra silêncios que
dançam com o tempo. As Beiras, com as suas montanhas e ribeiros, contam
histórias em cada pedra, em cada sombra que repousa entre os vales. Ambas são
geografias da alma, onde a terra molda o olhar e o olhar devolve, em arte,
aquilo que o coração colhe.
Nesses lugares, o tempo corre devagar, guiado pelo
compasso das estações e pelas mãos calejadas que sabem o peso da enxada, o
ritmo do tear e o segredo das ervas. O povo guarda nas vozes o eco de cantigas
antigas, nas festas o brilho da comunhão, e nos gestos o saber transmitido de
geração em geração — saber de fazer, de sentir, de resistir.
Este projeto é um encontro entre mundos: o mundo
visível das paisagens e o mundo invisível das emoções. Aqui, os alunos de Artes
Visuais transformarão as texturas da cal e do granito, os tons do sobreiro e do
castanheiro, os cantos do vento e os ecos das tradições em composições que são
janelas para dentro e para fora — para o que somos e para o que nos cerca.
Entre o branco luminoso do Alentejo e o verde profundo
das Beiras, há um fio invisível que une a matéria e o espírito, a memória e o
presente. Esta viagem será, assim, um convite à contemplação: que cada traço
nos leve a caminhar devagar, como quem atravessa um campo em flor ou sobe um
carreiro de serra, escutando o silêncio antigo das paisagens que nos formam. Neste percurso,
a arte torna-se ponte — entre o território e a identidade, entre o olhar jovem
e o legado ancestral. Ao desenhar, pintar ou esculpir, os alunos não apenas
representam o que veem: reinterpretam, recriam, ressignificam. Cada obra será
uma tentativa de capturar o intangível — o cheiro da terra molhada, o som de
uma avó a fiar memórias, o calor de uma tarde que parece suspensa no tempo.
Porque
criar, aqui, é também um gesto de escuta e de pertença, um modo de dizer que
estamos atentos ao que nos rodeia e ao que nos habita.
No início da última aula de Desenho A fui surpreendido pelos
meus alunos com um gesto que me tocou profundamente: um lindíssimo ramo de
flores acompanhado de um postal cheio de carinho. Não escondo — emocionei-me
com a felicidade que senti naquele momento. Foi um daqueles instantes que ficam
gravados no coração. Obrigado a cada um de vós, por tudo
aquilo que partilhámos, construímos e vivemos juntos ao longo destes três anos.
Foi uma verdadeira viagem de crescimento, de descoberta e de afeto mútuo.
Estarei sempre por aqui, de braços abertos e coração cheio, à vossa espera. Um
abraço enorme.
Sob os céus
eternos do Egito, onde o tempo repousa entre dunas douradas e ventos que
sussurram segredos antigos, convidamo-los a atravessar os portais da história. O Egito, terra de faraós e mitos,
onde o sol se ergue como um disco sagrado e as estrelas desenham mapas para a
eternidade, abre-se agora diante de nós não apenas como memória, mas como um
convite a uma verdadeira“Viagem com Alma”...
No
silêncio vasto do deserto, o amanhecer emerge como um segredo desvendado aos
poucos. O horizonte, antes velado pela escuridão, começa a brilhar em tons de
dourado e âmbar, e a luz, como uma carícia delicada, desperta as dunas. Cada
grão de areia parece capturar um reflexo da eternidade, cintilando como
estrelas que repousaram na terra durante a noite.
O vento
insinua-se entre as tendas, suave e constante, carregando consigo o aroma da
areia aquecida, misturado ao subtil perfume de especiarias e incenso. É uma
brisa viva, que parece contar histórias antigas – murmúrios de faraós, ecos de
caravanas que cortaram esse mesmo mar de areia em busca de destinos longínquos.
Em redor,
há uma quietude que não é ausência de som, mas presença. É o som do deserto,
onde o silêncio respira e vibra, como se o próprio espaço contivesse as
memórias do passado. Cada sopro de ar traz a sensação de se estar diante do
sagrado, de algo maior que o tempo e que nós mesmos.
O
acampamento, com as suas formas simples e os seus tecidos dançando sob a brisa
matinal, é um refúgio e, ao mesmo tempo, um portal. Aqui, entre o nascer do sol
e as sombras das dunas, o Egito revela-se não como uma terra distante, mas como
uma presença viva. É impossível não sentir o peso das eras. As imagens de
templos majestosos e colunas erodidas pelo tempo surgem na mente, e os
hieróglifos parecem flutuar no ar, narrando histórias numa língua que o coração
entende, mesmo que os olhos não leiam.
Sob o céu
que agora se tinge de azul, somos transportados. Não estamos apenas diante de
um amanhecer no deserto, mas de um encontro com a eternidade. É uma travessia
invisível, onde cada passo nos leva a uma conexão mais profunda com aqueles que
habitaram esta terra e deixaram a sua marca no vento, na areia, nas estrelas.
Sejam bem-vindos a este momento e a este lugar. Aqui
começou e acaba uma jornada – não apenas por um Egito que se descortina nos objetos
e nas imagens, mas por um Egito que vive na vastidão dos sentidos e na alma de
quem ousa escutá-lo.
Dizem que existe, no coração oculto do deserto, uma
tenda que só os viajantes de alma antiga conseguem encontrar. Ela ergue-se à primeira luz do dia, quando o mundo
ainda respira em silêncio, quando as sombras ainda se confundem com os sonhos. O
seu toldo gigante, tingido de lumes esquecidos, ondula como um ser vivo sob o
sopro dos deuses antigos.
Dentro dela, o chão é um mar de cores quentes — uma
carpete vasta, tecida com fios de amanheceres antigos. De um lado, um candeeiro
derrama uma luz quente e pulsante, como se ali dentro vivesse o coração do
próprio deserto. Pequenas esculturas — antigos espíritos esculpidos em bronze —
vigiam em redor, mudos, atentos. Dois poofs repousam sobre a carpete, e entre eles uma
mesa baixa, pesada, como um altar, sustenta uma taça de laranjas tão perfeitas
que parecem roubadas dos jardins secretos do sol. O ar cheira a poeira doce, a terra
quente, a fruta madura. À entrada, dois camelos aguardam. Um deitado, o outro
de pé — sentinelas imóveis — com olhos negros como a noite semlua. Além da tenda, meio velada pela névoa dourada da
manhã, uma esfinge antiga e esquecida ergue o seu perfil contra o horizonte —
um eco petrificado de tempos em que os homens falavam com as estrelas.
E por entre as ondas ondulantes da areia, uma mulher
berbere atravessa o mundo em marcha lenta. Os seus camelos seguem-na como
sombras obedientes, e o seu manto, de cor dourada, parece carregar consigo
todos os segredos do deserto. Diz-se que quem ali adormecer, sob aquela luz dourada
e sob o olhar atento da esfinge, acordará sabendo coisas que jamais poderão ser
ditas em voz alta — saberá os nomes verdadeiros do vento, das estrelas e da
própria saudade. Mas poucos encontram essa tenda, e menos ainda
conseguem lembrar-se dela ao acordar.
O CORREDOR DOS DEUSES
VISITA DE EÇA DE QUEIRÓS NA INAUGURAÇÃO DO CANAL DO SUEZ
A 23 de outubro de
1869, Eça de Queirós, então com 23 anos de idade, partiu para o Egito. Ia
assistir às às festas de inauguração do Canal de Suez, acompanhado
pelo seu amigo D. Luís de Castro Pamplona, conde de Resende. A viagem por terras do Oriente durou cerca de dois
meses.
Eça desembarcou em Alexandria no dia 5 de novembro, seguindo para
o Cairo. Da capital egípcia voltou a Alexandria, de onde partiu, por
mar, rumo a Port Said, fazendo parte da comitiva que a 17 de novembro
participou nas cerimónias grandiosas que assinalaram a abertura do canal ao
tráfego marítimo internacional.
O relato da inauguração
do Canal do Suez aparece ainda no livro do escritor português "O Egito -
Notas de Viagem", obra póstuma, publicada em 1926,
que descreve pormenorizadamente a cultura egípcia da época. A sua publicação
ficou a dever-se aos filhos do escritor, em especial a José Maria e a Alberto.
Foram eles que descobriram o original queirosiano da viagem.
A GEOGRAFIA DOS LUGARES
A ENTRADA
Onde a Terra Sonha e as Asas Dançam
No silêncio
dourado do deserto, onde o sol arde com a memória dos deuses, nasce o oásis — fonte
de vida entre dunas infinitas. Ali, onde a areia parece eterna, a terra
desperta em segredo e oferece sombra, água e alívio. Palmeiras erguem-se como
guardiãs do milagre, e pequenas lagoas espelham o céu, serenas, intocadas. O
oásis não é apenas lugar: é promessa, é pausa, é alma do deserto.
E então, como se viessem do próprio sopro do vento, surgem elas — borboletas monarca, dançando no ar com asas feitas de fogo e sol. Viajam distâncias impensáveis, guiadas por um instinto que desafia o tempo, leves e determinadas. Esvoaçam entre palmeiras e refletem sobre as águas, tocando o espaço com uma graça que não se explica. São frágeis, mas resistentes; são livres, mas sabem sempre para onde voltar. Carregam em si a essência da transformação — como o oásis, são o impossível tornado real.
Ali, onde o deserto encontra a vida e o ar se enche de poesia invisível, o Egito respira. E convida-nos a ver com outros olhos — a beleza que se revela quando paramos, olhamos, e escutamos o que parece silêncio.