“A viagem não acaba nunca.
Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa...
O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
O viajante volta já.”
José Saramago (1981) [adaptado]
Os cardos fazem parte
da paisagem rural portuguesa e, em particular, assumem um papel marcante nas
regiões do Alentejo e das Beiras. Seja nas extensas planícies alentejanas,
douradas pela luz intensa do verão, ou nos campos irregulares das Beiras, onde
se misturam culturas, matos e pastagens, o cardo surge como um elemento
resistente, adaptado à dureza do clima e à irregularidade dos solos. A sua
presença constante testemunha a força da natureza e a capacidade de
sobrevivência em ambientes desafiantes.
Nesta proposta de
trabalho, desafia-se os alunos a observar o cardo não apenas como planta
silvestre, mas como objeto artístico: uma forma escultórica natural, rica em
texturas, volumes e ritmos visuais. A estrutura espinhosa, a geometria das
folhas e das flores, e o contraste entre aspereza e delicadeza oferecem um
vasto campo para exploração no desenho e na pintura. Ao mesmo tempo, a ligação
cultural do cardo ao território — presente em lendas, tradições agrícolas e no
imaginário rural — permite aprofundar o olhar sobre a identidade visual das
regiões do Alentejo e das Beiras.
A poupa (Upupa epops) é uma das aves mais emblemáticas da avifauna portuguesa, facilmente reconhecível pela sua crista alaranjada com extremidades negras, pelo bico longo e curvado, pelo voo ondulante e pelo padrão contrastante das asas. Para além da sua singular beleza, esta espécie assume um papel ecológico relevante, sobretudo no controlo de insetos, ao alimentar-se maioritariamente de larvas e invertebrados associados ao solo. Em Portugal continental, a poupa apresenta uma distribuição ampla, embora com diferenças regionais marcadas na sua abundância. É particularmente comum no interior do Alentejo, onde encontra condições ideais em paisagens abertas, montados de sobro e azinho, olivais tradicionais e áreas agrícolas extensivas. No que respeita às regiões das Beiras, a espécie ocorre de forma regular, sobretudo nas zonas raianas e interiores, sendo mais frequente durante a primavera e o verão, período em que se reproduz. A presença da poupa nestes territórios reflete uma forte ligação a sistemas rurais de baixa intensidade, onde a coexistência entre atividade humana e biodiversidade ainda se mantém. Assim, esta ave constitui não só um valioso indicador da qualidade dos habitats agrícolas tradicionais, como também um elemento simbólico da paisagem natural do Alentejo e das Beiras, justificando plenamente o seu destaque em projetos de estudo, valorização e sensibilização ambiental.
Alentejo e Beiras, tão diferentes e tão próximas, onde a vida selvagem persiste. Em cada
canto, um olhar; em cada gesto, um som. São fragmentos de um mundo que respira
para além do humano, onde o tempo corre ao ritmo das estações e da lua, e onde
a natureza é simultaneamente pintora, escultora e criadora de sinfonias. Percorrendo
estas terras, sentimos o chamamento da liberdade: o coração do Alentejo, amplo
e aberto; a alma das Beiras, misteriosa e profunda. E se escutarmos com
verdadeira atenção, perceberemos que a vida selvagem não é apenas visível — ela
habita os sons, os cheiros, a luz que dança nas folhas e nas pedras. É
esse olhar atento e sensível que a próxima exposição nos propõe. Entre imagens,
cenários e ecos da terra, vamo-nos deixar conduzir por esta viagem com alma, onde a
vida selvagem se encontra com a memória humana. Animais pintados e desenhados
surgem lado a lado com a arquitetura popular, os muros de pedra, as casas
caiadas, os montes e aldeias que moldam o quotidiano do Alentejo e das Beiras —
não como mundos separados, mas como partes de uma mesma paisagem vivida.
Próxima exposição: 7 de maio
Já começámos com novos trabalhos e a criação de nova cenografia que se entrelaçará com a já existente.
Há lugares que
não se explicam — respiram-se. O Alentejo, com os seus campos ondulados sob o
sol quente, sussurra silêncios que dançam com o tempo. As Beiras, com as suas
montanhas e ribeiros, contam histórias em cada pedra, em cada sombra que
repousa entre os vales. Ambas são geografias da alma, onde a terra molda o
olhar e o olhar devolve, em arte, aquilo que o coração colhe. Nesses lugares, o
tempo corre devagar, guiado pelo compasso das estações e pelas mãos calejadas
que sabem o peso da enxada, o ritmo do tear e o segredo das ervas. O povo
guarda nas vozes o eco de cantigas antigas, nas festas o brilho da comunhão, e
nos gestos o saber transmitido de geração em geração — saber fazer, sentir,
resistir.
Neste encontro entre mundos: o mundo visível das
paisagens e o mundo invisível das emoções, transformam-se as texturas da cal e
do granito, os tons do sobreiro e do castanheiro, os cantos do vento e os ecos
das tradições em composições que são janelas para dentro e para fora — para o
que somos e para o que nos cerca. Entre o branco luminoso do Alentejo e o verde profundo
das Beiras, há um fio invisível que une a matéria e o espírito, a memória e o
presente.
Há casas que não se impõem à paisagem, mas que a
escutam. Que nascem dela, como se fossem feitas da mesma matéria dos montes e
dos vales. Mais a Norte, por entre os socalcos verdejantes e os
caminhos de pedra, surgem aldeias feitas de xisto e mistério, ou onde o casario
se acomoda à encosta como uma oração. O granito, abundante e sólido, ergue
muros espessos e telhados de ardósia. São construções que resistem ao tempo e
ao clima, moldadas pelo saber da montanha. As janelas pequenas guardam o calor,
e cada porta em madeira escura é a entrada para uma história — de trabalho, de
família, de silêncio. É uma arquitetura que não foi desenhada, mas aprendida —
como se cada castanheiro ao redor tivesse soprado conselhos à mão do construtor.
Mais a Sul, entre o calor das planícies alentejanas,
surgem casas de cal branca e contornos suaves. Em aldeias, onde a cortiça é
orgulho e sustento, a arquitetura popular respira com o sol. O branco das
paredes, renovado ano após ano, reflete o calor e traduz uma estética de
simplicidade luminosa. A taipa,
mistura humilde de terra, cal e palha, revela um saber ancestral de
sustentabilidade e adaptação. As chaminés elevam-se como coroas, afirmando
identidade — um contraponto à nobreza silenciosa do sobreiro que vigia os
campos.
Entre o peso da pedra e a leveza da cal, entre o xisto
e a taipa, há um modo de habitar que não é feito de pressa, mas de pertença. Um
modo de construir com o que há, e com o que se sente. São casas-poema,
casas-corpo, casas-memória. E agora, no espaço da exposição, erguem-se novas
paredes — feitas de desenho, de luz e de intenção. Cada traço é uma ombreira,
cada cor uma porta, cada ideia um lar. Porque criar é também habitar: o espaço,
o tempo e o que somos. Esta exposição é, assim, um convite à contemplação: cada
traço leva-nos a caminhar devagar, como quem atravessa um campo em flor ou sobe
um carreiro da serra, escutando o silêncio antigo das paisagens que nos formam.