“A viagem não acaba nunca.
Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa...
O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
O viajante volta já.”
José Saramago (1981) [adaptado]
Alentejo e Beiras, tão diferentes e tão próximas, onde a vida selvagem persiste. Em cada
canto, um olhar; em cada gesto, um som. São fragmentos de um mundo que respira
para além do humano, onde o tempo corre ao ritmo das estações e da lua, e onde
a natureza é simultaneamente pintora, escultora e criadora de sinfonias. Percorrendo
estas terras, sentimos o chamamento da liberdade: o coração do Alentejo, amplo
e aberto; a alma das Beiras, misteriosa e profunda. E se escutarmos com
verdadeira atenção, perceberemos que a vida selvagem não é apenas visível — ela
habita os sons, os cheiros, a luz que dança nas folhas e nas pedras. É
esse olhar atento e sensível que a próxima exposição nos propõe. Entre imagens,
cenários e ecos da terra, vamo-nos deixar conduzir por esta viagem com alma, onde a
vida selvagem se encontra com a memória humana. Animais pintados e desenhados
surgem lado a lado com a arquitetura popular, os muros de pedra, as casas
caiadas, os montes e aldeias que moldam o quotidiano do Alentejo e das Beiras —
não como mundos separados, mas como partes de uma mesma paisagem vivida.
Próxima exposição: 7 de maio
Já começámos com novos trabalhos e a criação de nova cenografia que se entrelaçará com a já existente.
Há lugares que
não se explicam — respiram-se. O Alentejo, com os seus campos ondulados sob o
sol quente, sussurra silêncios que dançam com o tempo. As Beiras, com as suas
montanhas e ribeiros, contam histórias em cada pedra, em cada sombra que
repousa entre os vales. Ambas são geografias da alma, onde a terra molda o
olhar e o olhar devolve, em arte, aquilo que o coração colhe. Nesses lugares, o
tempo corre devagar, guiado pelo compasso das estações e pelas mãos calejadas
que sabem o peso da enxada, o ritmo do tear e o segredo das ervas. O povo
guarda nas vozes o eco de cantigas antigas, nas festas o brilho da comunhão, e
nos gestos o saber transmitido de geração em geração — saber fazer, sentir,
resistir.
Neste encontro entre mundos: o mundo visível das
paisagens e o mundo invisível das emoções, transformam-se as texturas da cal e
do granito, os tons do sobreiro e do castanheiro, os cantos do vento e os ecos
das tradições em composições que são janelas para dentro e para fora — para o
que somos e para o que nos cerca. Entre o branco luminoso do Alentejo e o verde profundo
das Beiras, há um fio invisível que une a matéria e o espírito, a memória e o
presente.
Há casas que não se impõem à paisagem, mas que a
escutam. Que nascem dela, como se fossem feitas da mesma matéria dos montes e
dos vales. Mais a Norte, por entre os socalcos verdejantes e os
caminhos de pedra, surgem aldeias feitas de xisto e mistério, ou onde o casario
se acomoda à encosta como uma oração. O granito, abundante e sólido, ergue
muros espessos e telhados de ardósia. São construções que resistem ao tempo e
ao clima, moldadas pelo saber da montanha. As janelas pequenas guardam o calor,
e cada porta em madeira escura é a entrada para uma história — de trabalho, de
família, de silêncio. É uma arquitetura que não foi desenhada, mas aprendida —
como se cada castanheiro ao redor tivesse soprado conselhos à mão do construtor.
Mais a Sul, entre o calor das planícies alentejanas,
surgem casas de cal branca e contornos suaves. Em aldeias, onde a cortiça é
orgulho e sustento, a arquitetura popular respira com o sol. O branco das
paredes, renovado ano após ano, reflete o calor e traduz uma estética de
simplicidade luminosa. A taipa,
mistura humilde de terra, cal e palha, revela um saber ancestral de
sustentabilidade e adaptação. As chaminés elevam-se como coroas, afirmando
identidade — um contraponto à nobreza silenciosa do sobreiro que vigia os
campos.
Entre o peso da pedra e a leveza da cal, entre o xisto
e a taipa, há um modo de habitar que não é feito de pressa, mas de pertença. Um
modo de construir com o que há, e com o que se sente. São casas-poema,
casas-corpo, casas-memória. E agora, no espaço da exposição, erguem-se novas
paredes — feitas de desenho, de luz e de intenção. Cada traço é uma ombreira,
cada cor uma porta, cada ideia um lar. Porque criar é também habitar: o espaço,
o tempo e o que somos. Esta exposição é, assim, um convite à contemplação: cada
traço leva-nos a caminhar devagar, como quem atravessa um campo em flor ou sobe
um carreiro da serra, escutando o silêncio antigo das paisagens que nos formam.
Próximo da data de inauguração da nossa "Viagem", assinalamos o evento com a publicação do Cartaz e Convite. Teremos um programa especial de abertura da exposição e contamos com a vossa companhia. Ela será para nós o melhor incentivo para continuarmos com este "espírito aventureiro". Até lá...
Entre o silêncio do Alentejo e o sussurro das Beiras, duas casas abrem-se ao tempo com a simplicidade serena de quem acolhe tudo o que chega. Lado a lado, conversam num idioma tecido de terra, de calor e de gestos despretensiosos. No Alentejo, respira-se a calma que se alonga; nas Beiras, sente-se a força que perdura.
É com este espírito que continuamos a pintar os nossos cenários de grandes dimensões e, a cada passo, aproximamo-nos dos nossos dois destinos. A viagem tem data marcada: quatro de dezembro. Estamos atarefadíssimos, mas felizes por dar forma a mais uma aventura.
Apresentam-se apenas alguns trabalhos dos alunos do 7.º ano. Estarão todos expostos em breve na "Viagem" pelo Alentejo e Beiras. A nossa exposição inaugurará no dia 4 de dezembro e vamos ter muito para mostrar.
Nas
terras silenciosas do Alentejo, o branco das casas e o azul do céu encontram-se
nas mãos dos artesãos. É nas suas oficinas que o barro ganha forma e vida,
transformando-se em pratos, jarras e azulejos que guardam a alma da região. O
pincel desliza com calma, desenhando flores, ramos, pássaros e ondas — motivos
simples, mas cheios de significado. O azul, profundo e sereno, contrasta com o
branco puro, lembrando a luz intensa do verão e a paz das paisagens
alentejanas. Cada peça é única, fruto do gesto e da paciência, como se o tempo
parasse um pouco para deixar a arte respirar. Assim, a cerâmica azul e branca
do Alentejo não é apenas um objeto decorativo: é um pedaço de história, de
tradição e de beleza que continua a inspirar quem a observa e recria.