quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desafio aos Viajantes: Cordas com Música

O MAESTRO SACODE A BATUTA

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe ... 
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ... 

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo... 
(...)

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lisboa, menina e moça dos poetas (2)

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen (1977), in Obra Poética

Diário de Viagem

Corações de Ouro dos nossos viajantes... O desafio ainda está a começar!





domingo, 22 de janeiro de 2017

Lisboa (en)cantada


Lisboa, menina e moça dos poetas (1)

Lisboa é conhecida por ser uma cidade de poetas. Aqui, nasceram e morreram muitos dos poetas que agora dão nome a praças, ruas e ruelas e que fazem das suas antigas casas e hábitos citadinos passagem e estudo obrigatórios para os amantes de poesia.
O que têm em comum Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Luiz Vaz de Camões, Sophia de Mello Breyner, Ary dos Santos, Mário de Sá Carneiro (etc.), para além de serem os maiores poetas da língua portuguesa? Lisboa. Todos viveram a maior parte de suas vidas nesta cidade...

LISBOA
Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus e degraus até ao rio.Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade, iAté Amanhã, 1956